INTRODUÇÃO

Sabe-se que o tumor miofibroblástico inflamatório (TMI ou  também chamado de pseudo tumor inflamatório) é uma lesãorara caracterizada pela infiltração de células inflamatórias (linfócitos e eosinófilos)em diversos tecidos do corpo ecom baixa tendência a malignidade (Powell et al, 2014; Takagi et al and Wu et al, 2015; Yaghi, Alam et al, 2016). Apesar de o local mais encontrado ser os pulmões, pode acometer também outros órgãos como bexiga (mulheres com a faixa etária de 40-50 anos), fígado,  intestino grosso,  baço e o coração (Kataoka et al e Powell et al, 2014; Yaghi ,  Alam et al, 2016).

A despeito de sua etiologia ainda desconhecida, sugere-se que seja decorrente de uma ocorrência secundária a infecção, trauma ou múltiplas cirurgias pélvicas (Groenveld et al, 2014; Wu et al, 2015; Alam et al, 2016). Sua apresentação na bexiga possui uma clínica bastante inespecífica contendo hematúria indolor, disúria e urgência miccional (Powell etal, 2014; Groenveld et al, 2014; Xu, Zhou and Liang, 2015).

Visto que suas manifestações clínicas são bem inespecíficas, seu diagnóstico dá-se basicamente através da realização de uma análise histológica contendo uma proliferação de células atípicas. Deve-se lembrar de excluir a possibilidade de outros diagnósticos como lipoma, liposarcoma, teratoma, leiomiosarcoma e outros (Groenveld et al, 2014; Takagi et al and Xu,  Zhou and Liang, 2015; Yaghi, 2016).

METODOLOGIA

Trata-se de paciente de 55 anos, sexo feminino, proveniente do interior de Minas Gerais, admitida em nosso ambulatório com quadro de ITU de repetição, sendo 3 episódios nos últimos 6 meses associado a episódios de dor lombar tipo cólica a direita, de moderada intensidade. À ocasião, negava episódios de hematúria. Tabagista há 20 anos, portadora de HAS e hipotireoidismo, e usava os seguintes medicamentos regularmente: Puran T4 100mcg MID, nifedipino 20mg BID e hidroclorotiazida 25mg MID.

Exame de ultrassom do aparelho urinário evidenciou nefrolitíase a direita, com cálculo de 5mm no polo superior além de lesão vesical endofítica descrita como protuberância identificada próximo a junção da parede lateral direita com o assoalho da bexiga. (Figura 1).

Sob suspeita de uma neoplasia maligna de bexiga, optamos por realizar uretro cistoscopia armada (RTU de bexiga) com biópsia excisional da lesão. A cirurgia foi realizada no Hospital Dílson Godinho de Montes Claros – MG e transcorreu sem intercorrências. Durante o procedimento foi identificado nodulação séssil de aspecto polipóide, com aproximadamente 3cm de tamanho em seu maior diâmetro, sendo completamente ressecada.

O material foi enviado ao laboratório de Anatomia Patológica do mesmo serviço. O anátomo-patológico revelou ao exame macroscópico, 21 fragmentos irregulares de tecido pardacento e elástico medindo em conjunto 3,5 x 3,0 x 1,4 cm e pesando 4g.

À microscopia, os cortes histológicos mostraram fragmentos de urotélio apresentando proliferação de células fusiformes tipo fibroblastos com atipiasdiscretas na lâmina própria, núcleos vesiculosos em meio a denso infiltrado inflamatório mononuclear rico em plasmócitos e com frequentes eosinófilos, com estroma colagenizado, além de focos de necrose coagulativa, ulceração e moderado edema. A mucosa urotelial não apresentava atipias. Houve baixo índice mitótico (Figura 2 e 3).

A conclusão revelou fragmento de urotélio com proliferação fusocelular e processo inflamatório crônico associado, o que favorece o diagnóstico de cistite crônica polipóide, não sendo possível entretanto afastar totalmente a possibilidade de tumor miofibroblástico inflamatório. Diante disso, recomendou-se complementação diagnóstica com Estudo Imuno-histoquímico na tentativa de se definir com precisão o diagnóstico.

O estudo imuno-histoquímico revelou positividade para actinado músculo liso (1A4) e ALK-1 nas células fusiformes (Figura 4), conforme demonstra o painel dos marcadores a seguir (Tabela 1).

Esses achados são consistentes com TUMOR MIOFIBROBLÁSTICO INFLAMATÓRIO.

No pós-operatório, a paciente apresentou evolução favorável, sendo retirado SVD no 2ºDPO e alta hospitalar com diurese clara e espontânea no 3ºDPO.

DISCUSSÃO

O TMI foi descrito pela primeira vez por ROTH (1980) que demonstrou  um caso de uma paciente de 32 anos com lesão intravesical contendo células fusiformes em um estroma mixóide e desde então, já relatou-se aproximadamente 100 casos (Powell etal, 2014; Yaghi, 2016). Acreditava-se que existia uma predileção entre mulheres jovens, mas alguns estudos já demonstraram que apesar da alta taxa de ocorrência, não há uma relação com sexo ou idade (Powell etal, 2014; Takagi et al, 2015).

O diagnóstico desse tumor é extremamente importante para diferencia-lo dos demais tumores malignos (leiomiosarcoma, rabdomiosarcoma, câncer urotelial e outros). Porém como pode ser de difícil visualização, confirma-se o diagnóstico de TMI com a análise histológica do tecido afetado contendo células fusiformes atípicas e em grande quantidade. Mas pode ser necessário a realização de outras avaliações como a imunohistoquímica para diagnóstico diferencial de cistite crônica, como no caso relatado acimae a análise de anticorpos para diagnóstico diferencial dos tumores malignos do trato urinário, visto que o TMI apresenta características fenotípicas similares (expressão de citocinas) (Takagi et al, 2015;Zlatev, Altobelli and Liao, 2015;Yaghi, Alam etal, Zangari et al, 2016). Entratanto, existem alguns marcadores de anticorpos que positivam apenas no TMI como ALK1 (anaplasticlymphomakinase – gene da translocação) e 1 A4 como observado no caso descrito (Tabela 1).

Apesar de ser um tipo de tumor com baixa tendência a malignidade, crescimento lento e não produzir metástase, sua mortalidade depende da extensão tecidual que foi afetada pelo tumor (Yaghi; 2016). Anteriormente, utilizava-se como tratamento técnicas muito agressivas, por acreditarem ser um tumor maligno. Com os novos estudos e as novas técnicas de tratamento, indica-se a ressecção intrauretral (RTU) como padrão ouro para tratamento desse tipo de tumor.

CONCLUSÃO

Desse modo, é possível reforçar a importância do uso das técnicas adequadas e o laudo fidedigno das alterações encontradas para permitir o diagnóstico correto da patologia. Definindo-se então qual a intervenção deve ser indicada, evitando-se cirurgias radicais desnecessárias.

REFERÊNCIAS
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