ABSTRACT

Sexual dysfunctions affect men and women. They can be caused by organic or psychological changes. The Pandemic of the New Coronavirus – Covid-19, which affected the whole world in March 2020, interfered in social life, the economy, education and especially physical and mental health. With all this context of uncertainty, it was not to cause strangeness that the population would suffer from the anguish of the unknown. The decrease in sexual performance in men and women was already expected due to the pandemic.

INTRODUÇÃO

Disfunções Sexuais acometem homens e mulheres. Podem ser causadas por alterações orgânicas ou psicológicas. A pandemia do Novo Coronavírus – Covid-19, que acometeu o mundo todo em março de 2020, interferiu no convívio social, na economia, na educação e principalmente, na saúde física e mental. Com todo esse contexto de incertezas, não era de se causar estranheza que a população iria sofrer com a angústia do desconhecido. A queda do desempenho sexual em homens e mulheres já era esperado em virtude da pandemia.

OBJETIVO

O objeivo do estudo foi avaliar o impacto no desempenho sexual de homens e mulheres, durante a pandemia do Covid-19.

MATERIAL

Foram entrevistados pacientes durante o período de 15 de março a 30 de junho de 2020. Esses pacientes procuraram o serviço de urologia, com queixas urológicas diversas: retenção urinária, dor escrotal, inflamações penianas, infecção urinária, cólica renal e disfunções sexuais variadas. No momento da consulta era explicado sobre a natureza do estudo, que seriam respostas totalmente anônimas. Foram entrevistados 802 pacientes, sendo 685 homens e 117 mulheres. A idade do grupo estudado variava entre 19 a 65 anos.

Todos os pacientes incluídos nesse estudo, tinham vida sexual ativa considerado relação sexual propriamente dita ou auto estimulação. Foi considerado com critério de inclusão no estudo: disfunção erétil, ejaculação precoce ou retardada, falta de libido, falta de orgasmo, falta de desejo ou falta de excitação sexual. Foram excluídos do estudo pacientes que estavam em propedêutica para disfunções sexuais, iniciadas antes da pandemia, e pacientes com suspeita ou infectados pelo Covid-19.

RESULTADOS

Do total de 802 pacientes entrevistados, 521 (68%) observaram diminuição do desempenho sexual em algum grau.

Essa queixa foi relatada em 479 (70%) pacientes do sexo masculino, enquanto que 42 (35,89%) mulheres do estudo queixaram piora do desempenho sexual. Entre os solteiros, a queixa foi mais frequente 330 (63,33%). Em relação aos 191(36,66%) dos pacientes casados. Entre os pacientes que observaram a queda do desempenho sexual, 218(41,84%) não tinham problemas sexuais anterior a pandemia. (Vide tabela: 1.)

TABELA 1

TOTAL DE PACIENTES PACIENTES C DISF SX
Casados 269 191
Solteiros 533 330
Mulheres 117 42
Homens 685 479
Pacientes Total 802 521
DISCUSSÃO

Disfunções Sexuais acometem tantos homens como mulheres. Podem ser causadas por alterações orgânicas ou psicológicas.1,14,15 A pandemia do Novo Coronavírus, Covid-19, que acometeu o mundo todo, em 2020, teve reflexos no convívio social, na economia e principalmente, na saúde física e mental das pessoas.

Tratava-se de infecção virótica, completamente nova, que surgiu na China, na província de Wuhan, em março de 2020. O vírus, aparentemente acometia o sistema respiratório e imune do paciente.3,4,5,6,7,8,9 Não se tinha dados de como a população mundial, seria acometida em todos os aspectos, pois era doença inédita para os tempos atuais.

Não tendo um tratamento efetivo, até o momento que escrevo esse artigo, essa incógnita mostrou como frágeis nos seres humanos somos. Inicialmente, o isolamento social, associado ao incentivo aos cuidados com a higiene pessoal como: o uso de álcool gel e lavar as mãos, com maior frequência, era o que se podia fazer a fim de evitar contaminação da população e evitar o colapso dos sistemas de saúde, de todo o mundo. Uma parte dos pacientes que foram contaminados, cerca de 20%, desenvolviam um quadro de insuficiência respiratória grave sendo que em 2% desses pacientes poderiam ir a óbito.3,4,5,6,8

Com todo esse contexto de incertezas, não era de se causar estranheza que a população iria sofrer com a angústia do desconhecido. Quadro de ansiedade, depressão, são muito comuns, em situações dessa natureza.16,17 Dificuldades de relacionamento, mudança na rotina do dia-a-dia, com as famílias convivendo em casa, 24 horas por dia, impedidas do contato pessoal, dificuldades financeiras, com as pessoas perdendo a capacidade de gerar renda, são fatores conhecidos como possíveis causas psicológicas da piora do desempenho sexual, entre homens e mulheres.1,11,14,15

As principais queixas sexuais masculinas são: a falta de libido, disfunção erétil, ejaculação precoce e diminuição da frequência sexual.(14) Já entre as mulheres as queixas mais comuns são: dispareunia, falta de excitação e falta de desejo.12,13,14

No presente estudo, foram incluídos, homens e mulheres, sexualmente responsivos, em uso ou não de medicação, para tratamento de disfunções sexuais. Não foi investigado aqui comorbidades, uma vez os pacientes estavam sexualmente responsivos até o início da pandemia do Covid-19.

Foi considerado importante o fato de grande parte desses pacientes, homens e mulheres, serem “novos” pacientes, ou seja, não eram pacientes de rotina do nosso serviço. Esse fato foi observado, principalmente no início da pandemia, pois os pacientes evitavam ir aos hospitais com receio de entrar em contato com pacientes infectados pelo Novo Coronavírus.

Não foram incluídos aqui pacientes que estavam em propedêutica, para disfunções sexuais, antes do início da pandemia pelo Covid-19, como também não foram incluídos pacientes com suspeita ou diagnosticados com o Covid-19.

Os pacientes estavam angustiados, depressivos e ansiosos. Muitos não entendiam que a causa do problema sexual, independente qual fosse, poderia estar relacionado a nova situação em suas vidas. Muitos inclusive responsivos à tratamentos para disfunções sexuais, não entendiam o porquê da regressão dos resultados dos tratamentos, antes efetivos.

No grupo estudado de 802 pacientes, importante frisar o maior número de pacientes masculinos, 685, sendo desses 479, com queixas sexuais. Em relação às mulheres, de 117 mulheres entrevistadas, 42 pacientes femininas, com queixas sexuais. Fato que pode ser explicado devido nossa instituição ser voltada principalmente para o atendimento do público urológico masculino.

Outro resultado digno de destaque é o número maior de pacientes solteiros, 330 pacientes, sem parceria sexual fixa, com queixa de queda do desempenho sexual, em relação aos 191 pacientes “casados”, com dificuldade sexual. Fato que pode ser explicado facilmente devido ao receio do homem ou da mulher, sem parceria sexual fixa, procurar novo relacionamento durante a pandemia.

Mas talvez o número mais importante, é o de “novos” pacientes com queixa de piora do desempenho sexual, durante a pandemia, pacientes até então sem nenhuma queixa sexual, 336 (42,0%) desenvolveram alguma disfunção sexual.

Em situações de estresse emocional, associado a preocupação financeira,cada pessoa tende a responder com um mecanismo diferente de defesa.6,16,17 São sintomas comuns de pacientes sob estresse: precordialgia, aumento nos níveis de pressão arterial, dispnéia, fôlego curto, epigastralgia, alterações urinárias, alterações intestinais, cefaléia, depressão, etc.16,17

Na área sexual são sintomas comuns: falta de desejo sexual, disfunção eréctil, disfunções ejaculatórias, dificuldade de excitação.1,11,12,13,14 Essas alterações orgânicas se justificam e encontram explicação na resposta fisiológica associada ao stress e ao trauma. O organismo aumenta a produção de Cortisol e Noradrenalina, hormônios neurotransmissores ligados ao stress.

É a resposta do sistema nervoso autonômico a um estímulo externo (medo, apreensão, angústia, incerteza) que promovem respostas somáticas que interferem na resposta sexual humana.1,11,12,13,14 Ocorre vasoconstrição periférica, que interfere principalmente na primeira fase da resposta sexual; a fase de excitação, prejudicando a ereção, nos homens e a lubrificação vaginal, nas mulheres. Com a primeira fase da resposta sexual comprometida, as outras fases, platô, orgasmo e resolução, não acontecem de forma normal. Tentativas de relações sexuais sucessivas sem sucesso, desencadeiam o que conhecemos por Temor de Desempenho. Nas mulheres, a dificuldade de excitação, prejudica a lubrificação vaginal, levando a uma penetração peniana dolorosa e um quadro de dispareunia. Inicia se um quadro repetitivo, onde a mulher evita a aproximação física que poderia levar ao intercurso sexual, o que conhecemos por vaginismo.

Outro fator importante na piora das disfunções sexuais, é que devido o confinamento domiciliar, os pacientes solteiros, sem parceiras ou parceiros fixos, não tinham disponibilidade de encontrarem, fisicamente. Já no grupo dos casados, o confinamento social, inicialmente parecia ser uma oportunidade de mais encontros, pois teriam maior tempo juntos. Porém, o convívio domiciliar, sem liberdade, e a “rotinização” devido a presença de outras pessoas em casa, dificultou o encontro amoroso.

CONCLUSÃO

Não podemos imputar a piora do desempenho sexual de homens e mulheres ao Novo Corona Vírus – Covid-19. No entanto, as alterações no modo de vida da população, até então, com mudança de hábitos de convívio social, alterações econômicas, psicológicas e dificuldade de encontros amorosos, são causas psicológicas pela piora do desempenho sexual. É muito importante o médico especialista ou não em medicina sexual, saber apontar as causas dessa piora do desempenho sexual e evitar simplesmente de medicar esses pacientes, em especial, a fim de evitar o surgimento de uma dependência psicológica a medicamentos sem necessidade

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