INTRODUÇÃO:

A citologia urinária é um teste importante na investigação de pacientes que estão em risco e em vigilância de pacientes com carcinoma urotelial, um câncer relativamente comum em adultos e com mortalidade significativa. Vantagens da citologia urinária incluem o fato de ser pouco invasiva, a facilidade de realização, a alta sensibilidade e especificidade para lesões uroteliais de alto grau (que podem ser ocultas à cistoscopia), a possibilidade de pesquisa de todo o trato urotelial e o baixo custo. Há, no entanto, limitações, incluindo a baixa sensibilidade e o baixo valor preditivo negativo em pacientes com tumores uroteliais de baixo grau, problemas na forma de colheita e preservação da amostra, uma taxa significativa de resultados equívocos ou atípicos, e a falta de padronização da nomenclatura dos laudos citopatológicos, que podem levar a dilemas de conduta para o urologista.

TRATO URINÁRIO – CITOLOGIA:

O trato urinário é composto pelos rins, ureteres, bexiga urinária e uretra. A porção basal da bexiga urinária contém o trígono, uma área triangular com o vértice dirigido para a frente. A pelve renal, os ureteres, a bexiga e a uretra são revestidas por um epitélio altamente especializado e único, o “urotélio”, também conhecido como epitélio transicional. O urotélio é composto por uma camada basal de células cubóides descansando sobre a membrana basal, camadas intermediárias, e uma camada superficial de células referidas como células guarda-chuva que são razoavelmente grandes e podem ter vários núcleos. O urotélio tem a característica única de formar uma barreira entre a urina tóxica, prevenindo escapes, e tem a capacidade de se contrair e se expandir acompanhando a função fisiológica normal da bexiga. O trígono, em 50% das mulheres adultas e em alguma proporção da bexiga masculina, pode ser revestido por epitélio escamoso; áreas de epitélio produtor de muco também podem ser observadas.

COLHEITA DA CITOLOGIA URINÁRIA:

Uma das maiores causas de limitação e desapontamento em relação aos resultados da citologia urinária é a colheita inadequada. A maior parte dos laboratórios não fornece orientações adequadas, e a maior parte dos urologistas desconhece os fundamentos necessários. Tal fato é crítico, pois uma revisão sistemática da literatura demonstra claramente que a colheita de citologia oncótica urinária requer alguns cuidados especiais. Nunca deve ser usada a primeira urina matinal. O espécime deve ser colhido entre o café e o almoço, cerca de três horas após a primeira micção do dia e após a ingestão de 3-4 copos de água. Um volume de 50-70 ml é suficiente, e idealmente devem ser colhidas três amostras em dias consecutivos. Após a colheita, o material deve ser imediatamente colocado em refrigeração, sem adição de nenhuma substância, e enviado ao laboratório, aonde deve chegar no máximo após seis horas da hora da colheita – espécimes recebidos após esse período correm um grande risco de autólise, tornando a análise inadequada. No laboratório, o tratamento deve também ser diferenciado: o processamento da amostra deve ocorrer o mais rapidamente possível, para evitar sua perda.

NOMENCLATURA:

Ao longo dos anos, vários investigadores têm publicado esquemas de classificação para citologia urinária. As classificações evoluíram em consonância com as mudanças da classificação histopatológica das lesões de bexiga, com a melhor compreensão da citologia urinária per se, da patologia do carcinoma urotelial e, ainda, em função das expectativas dos médicos que enviam a urina para estudo. A criação de um esquema clinicamente útil para relatar citologia urinária tem sido um desafio, e alguns dos pontos fracos dos sistemas de classificação anteriores incluem a falta de definição rigorosa de critérios para categorias específicas, a falta de consenso para a categorização “atípica”, e a falta de ampla aceitação e utilização de um esquema padrão pelos patologistas. A inadequação dos sistemas de classificação indubitavelmente põe em risco a confiança dos urologistas e o uso continuado do teste.

Os trabalhos clássicos de Papanicolaou, Koss, Murphy e Ooms-Veldhuizen, entre outros, serviram de norte para que, em 2003, a Papanicolaou Society of Cytopathology Task Force publicasse uma recomendação de classificação, já considerando a classificação histológica proposta em 1998 em conjunto pela OMS e pela International Society of Urological Pathology. Essa classificação faz referência à (I) adequabilidade do material, (II) categorização geral (negativo ou alterado) e (III) diagnóstico descritivo. O ponto crítico dessa proposta é o terceiro grupo, em que as alterações são descritas: fazem-se referências a alterações de etiologia infecciosa, a alterações reativo-inflamatórias morfologicamente inespecíficas, a alterações secundárias à quimioterapia ou radioterapia, e à anormalidade de células epiteliais, com os diagnósticos fundamentais (mas não exclusivos) de células uroteliais atípicas (que deve obrigatoriamente ser justificado), carcinoma urotelial de baixo grau, carcinoma urotelial de alto grau e adenocarcinoma.

NO DIA-A-DIA DO UROLOGISTA:

A citologia urinária tem papel relevante para o estabelecimento de conduta, principalmente se feita adequadamente. Pode ser de grande utilidade em locais onde há carência de métodos diagnósticos mais sofisticados e, em associação com a cistoscopia, oferece resultado confiável, através de metodologia não-invasiva e barata, principalmente em relação às lesões de alto grau – para essas lesões deve-se ter em mente que a citologia urinária permanece como um método muito útil de monitoramento, oferecendo, para os pacientes com carcinomas uroteliais superficiais de alto grau, uma sensibilidade e especificidade diagnóstica que alcança cerca de 90%.

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