RELATO DE CASO

O artigo relata o caso do paciente AJS, 48 anos, com quadro de hipogonadismo. O paciente é portador da Síndrome de Klinefelter (KS), em uso de Terapia de Reposição de Testosterona ( TRT) há aproximadamente 6 anos, sem intercorrências. Atualmente estava em uso de 1000 mg de undecanoato de testosterona, a cada 3 meses. O fato ocorreu poucos minutos após a injeção IM na região glútea, aplicado em farmácia. O paciente iniciou com quadro agudo de dispnéia, confusão mental, taquicardia, sudorese e petêquias por todo o corpo. Foi encaminhado para o serviço de urgência, onde foi iniciado o primeiro atendimento. Após avaliação inicial pela equipe plantonista, avaliado gasometria e exame clinico, foi constatado quadro sugestivo embolia gordurosa devido a injeção do medicamento inadvertidamente na corrente sanguínea. Foi iniciado de imediato infusão de soro fisiológico 0,9%, oxigênioterapia e uso de corticóides. Aguardado os exames laboratoriais, o paciente evoluiu com melhora rapidamente, mas permaneceu internado por 48 horas. Recebeu alta em uso de corticoides. Atualmente faz TRT com formulação em forma de gel.

Discussão

A Síndrome de Embolia Gordura (SEG) é uma condição clínica grave que pode levar ao óbito. Trata-se da piora do quadro clínico da Embolia Gordurosa (EG).

Está relacionada geralmente a pacientes submetidos a procedimentos estéticos ou ortopédicos como: lipoaspiração, abdominoplastia, lipoenxertia, bioplastia, tratamentos de fratura de ossos longos, bacia ou pelve, cirurgias corretivas da articulação coxo-femoral, artroplastias do quadril ou joelho.

A SEG ocorre devido a entrada de material gorduroso autólogo ou heterólogo na corrente sanguínea. A fisiopatologia do processo é ainda incerta.(1,2,3,5,7)

Alguns trabalhos associam a fisiopatologia à obstrução mecânica, nos pulmões, cérebro fígado ou membros superiores e inferiores. Mas a teoria mais aceita atualmente é de que esse material gorduroso, uma vez dentro dos vasos sanguíneos, sofreria ação da enzima lipase, sendo transformado em ácidos graxos livres.(1,2,3,8) Nesse momento o organismo responderia a presença do corpo estranho, em reação inflamatória tipo complemento, com a migração de neutrófilos e macrófagos que agrediriam tanto o êmbolo gorduroso, como as células endoteliais.(1,2,3,5,7,8)

O resultado dessas reações é a ruptura da rede capilar, seguida de hemorragia e edema nos órgãos afetados. Dependendo da intensidade da reação imunológica o paciente pode evoluir para o quadro de síndrome de angústia respiratória do adulto (SARA), necessitando de assistência ventilatória, em casos mais graves a óbito.

Nesse caso relatado, o paciente portador de Síndrome de Klinefelter (KS), que geneticamente apresenta cariótipo 47XXY e o não desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários. É quadro clínico de hipogonadismo hipergonadotrófico, com azoospermia e sinais e sintomas referentes a falta de testosterona. O paciente fazia uso de TRT, há 6 anos, sem intercorrências anteriores. Inclusive já estava familiarizado com o uso da medicação.

Na literatura médica, não encontramos trabalhos científicos indexados relacionados ao uso de TRT e SEG. Na verdade, a literatura aponta as controvérsias em relação a segurança ou não, dareposição com testosterona, à quadros de tromboembolismo não gorduroso.(6,9,10) A preocupação em relação a TRT, está na possibilidade do aumento do hematócrito por estimulação da hematopoiese. Pacientes que são submetidos a TRT, normalmente são avaliados nesse aspecto e caso ocorra essa alteração, são orientados a iniciar o uso de anticoagulantes ou em casos mais graves flebotomia ou suspensão da TRT.(6,9,10)

No caso relatado, foi seguido o mesmo protocolo para atendimento dos pacientes com SEG. O diagnóstico é clinico, associado principalmente ao relato do paciente ou familiar, pois o quadro de imagem pulmonar pode não demonstrar, de imediato, os sinais de embolia gordurosa.(1,2,3,7,8) Foi iniciado oxigênioterapia, infusão de soro fisiológico e uso de corticosteroides. Não existe na literatura consenso sobre a diferença entre o uso ou não dos corticoides. É de conhecimento geral que o uso de corticoides pode estabilizar a integridade das membranas celulares, evitando o início da reação inflamatória.(1,2,3,4,5,7)

O paciente evoluiu bem, sem sequelas, recebendo alta hospitalar após 48 horas. Optou em continuar a TRT, porém agora com o uso da formulação em forma de gel.

Conclusão

A Síndrome de Embolia Gordurosa é uma condição clínica raramente relacionada ao uso de Testosterona. No entanto, a suspeita clínica deve levar em conta o uso recente da medicação e iniciado de imediato o suporte clínico ao paciente, afim de evitar complicações que geralmente são graves.

Referências
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