Introdução

Os tumores par atesticulares malignos primários são raros e correspondem a cerca de 7 a 10% das massas testiculares. Podem se originar em qualquer estrutura que componha a região para testicular como: a túnica albugínea, epidídimo, cordão espermático e os remanescentes vestigiais (apêndices testiculares e epididimários). Podem ter origem epitelial, mesotelial ou mesenquimal e apresentar diferentes padrões de agressividade.1,2,3,4

O mesotelioma constitui um conjunto de raras neoplasias originárias do mesotélio de cavidade pleural, peritoneal, pericárdio ou túnica vaginal. Seu principal sítio de acometimento é o pleural e o principal fator de risco descrito é a exposição ao asbesto. Quanto ao prognóstico, há comportamento diverso, desde casos agressivos, como o mesotelioma maligno pleural, até outros de baixo potencial de malignidade, como no mesotelioma papilar bem diferenciado de túnica vaginal.3,4,5

O presente artigo descreve um caso de mesotelioma papilar bem diferenciado de túnica vaginal, entidade rara e com baixo potencial de malignidade.

Relato de caso

Paciente de 33 anos, sexo masculino, publicitário, apresentando dor e nodulação escrotal à direita há aproximadamente um mês. Fez tratamento com antibiótico e anti-inflamatórios, sem melhora. Nega trauma testicular ou corrimentos. Sem comorbidades em seu histórico.

Ao exame físico, chamava atenção nodulação em cabeça de epidídimo direito, com testículos normotróficos e tópicos. Sem secreção uretral. Não havia linfadenomegalia palpável.

Além disso, portava ultrassonografia escrotal que evidenciava nódulo sólido adjacente à cabeça do epidídimo direito de aproximadamente 0,5 x 0,5 mm.Foram solicitados marcadores tumorais clássicos para tumor de testículo (alfa-feto proteína, beta hcg, LDH), que se encontravam dentro da normalidade. Nova ultrassonografia com Doppler mostrou nódulo sem vascularização sugestivo de apêndice testicular. Diante do quadro clínico estável e dos exames complementares, optou-se por seguimento clínico e ultrassonográfico. A ultrassonografia de controle evidenciou lesões granulomatosas no recesso vaginal, podendo corresponder a mesotelioma testicular.

Frente ao provável diagnóstico, optou-se, então, por conduta cirúrgica (orquiectomia radical por via inguinal) com implante de prótese testicular no mesmo ato. Procedimento sem intercorrências. Paciente recebeu alta no primeiro dia pós operatório com analgésico simples e anti-inflamatório.

Em consulta de retorno, encontrava-se bem, e já trazia resultado de anatomopatológico que confirmou tratar-se de mesotelioma papilar bem diferenciado da túnica vaginal, com margens livres. O paciente foi orientado quanto ao baixo potencial de malignidade e da não necessidade de tratamento adjuvante.

Resultados e discussão

Os tumores paratesticulares são entidadesraras, mas que devem ser lembrados no diagnóstico diferencial das lesões escrotais.As lesões mesoteliais desta região incluem a hiperplasia mesotelial, cistos mesoteliais, tumores adenomatóides, mesotelioma maligno e o tumor papilar bem diferenciado. Dentre estes, a mais comum é o tumor adenomatóide, que apresenta comportamento benigno. O mesotelioma papilar bem diferenciado corresponde a 0,3-a 5% dos mesotelioma.5,6

No caso do mesotelioma papilar bem diferenciado, em geral, manifesta-se como massa escrotal indolor, associada a hidrocele.4 6 A sua etiologia permanece incerta, podendo estar relacionado a herniorrafia prévia, trauma local ou hidrocele de longa data. Assim como o mesotelioma pleural, a exposição ao asbesto pode ser fator de risco5.Pode ocorrer em qualquer faixa etária, sendo mais encontrados, porém, em homens mais velhos. Os achados clínicos e radiológicos não permitem diferir com segurança o subtipo de mesotelioma, fazendo da exploração cirúrgica inguinal necessária.6,7

O principal diagnostico diferencial deve ser feito entre o mesotelioma papilar bem diferenciado e o mesotelioma maligno. Até mesmo à análise microscópica podem apresentar características que se sobrepõem.5

Quando se suspeita de mesotelioma durante a hidrocelectomia, a orquiectomia radical inguinal está indicada a fim de se confirmar a histologia. Para o mesotelioma maligno, a linfadenectomia retroperitoneal pode ser considerada,enquanto a quimioterapia ainda não tem papel bem definido. Jáo mesotelioma papilar bem diferenciado, não requer tratamento adjuvante, tendo em vista seu baixo potencial de malignidade4,7.

Referências
1. Khandeparkar SG, Pinto RG. Histopathological spectrum of tumor and tumor-like lesions of the paratestis in a Tertiary Care Hospital. Oman Med J 2015;30:461-8
2. Felkl ,R.A. Mesotelioma bem diferenciado (benigno) de túnica vaginal: relato de um caso e revisão da literatura. Rev. AMRIGS, 2015 – Disponível em: www.amrigs.org.br
3. Rodriguez D, Olumi AF. Management of spermatic cord tumors: a rare urologic malignancy. Ther Adv Urol. 2012;4:325–34.
4. Brimo F, Illei PB, Epstein JI. Mesothelioma of the tunica vaginalis: a series of eight cases with uncertain malignant potential. Mod Pathol. 2010;23:1165–1172.
5. Erdogan S, Acikalin A, Zeren H, Gonlusen G, Zorludemir S, Izol V, et al. Well-differentiated papillary mesothelioma of the tunica vaginalis: A case study and review of the literature. Korean J Pathol. 2014;48:225–8. [PMC free article] [PubMed]
6. Hirsch, M.S. Anatomy and pathology of testicular tumors [Internet]. Disponível em: https://www.uptodate.com
7. Campbell, S.C., Lane, B.R. Campbell-Walsh Urology, Neoplasm of Testis. 11 ed. Elsevier, New York; 2016.