INTRODUÇÃO

As causas de hipogonadismo são variados, tendo como etiologia de origem multifatorial. O presente trabalho tem como objetivo descrever um caso de paciente com hipogonadismo que apresentou como causa de tal condição o prolactinoma de adenohipófise.

RELATO DE CASO

F.J.S. , 55 anos, casado , natural do RJ , deu entrada no ambulatório com queixas de disfunção erétil e problemas relacionados à qualidade sexual. Vida sexual ativa, mantém relações quinzenalmente, entretanto vem perdendo   o desejo com a parceira e dificuldade de concentração. Sem galactorréia. Referiu diminuição do volume do ejaculado nas últimas semanas.

Relatou episódios intermitentes de fogachos. Nega história de LUTS, sem demais queixas do trato genitourinário. Nega tabagismo, etilismo social. Comorbidades: HAS em tratamento regular com captopril 50mg /dia. Exame físico da genitália: sem alterações, testículos tópicos sem anormalidades. Ginecomastia evidente. (Figura 1).

Sem alterações visuais, mantendo acuidade normal.Exames laboratoriais: hemograma e bioquímica sem alterações:

– PSA = 0,53ng/ml

– Testosterona total (22/08/2014): 145ng/dl (VR: 280- 340)

– Testosterona total (22/05/2016): 306ng/dl (VR: 280-340)

– Ferritina sérica: 284 ng/ml (VR: 23,9 – 336,2)

– FSH: 0,67 mUI/ml (VR: 1,1- 8,0)

– LH: 0,07 mUI/ ml (VR: 1,5 – 9,3)

– Prolactina : 69 ng/ml (VR: 2,1-19,0)

– TSH e T4 livres: 0,9 / 1,6

Exames de imagem (RNM sela túrcica): adenoma hipofisário com diâmetro de maior eixo igual a 2,2 cm, com presença de componente cístico, quiasma óptico, haste hipofisária desviada levemente para esquerda. Figuras (2,3 e 4).

O paciente foi inicialmente submetido a tratamento clínico com agonista dopaminérgico (cabergolina),  sendo conjuntamente  acompanhado pelo serviço de Urologia do Hospital Federal Cardoso Fontes (HFCF), no ambulatório de Andrologia, e teve consulta recente com exames laboratoriais evidenciando os seguintes resultados: FSH e LH normais , dosagem de TSH e T4l sem anormalidades, prolactina de 26,40 , testosterona de 173. Paciente segue com terapia de reposição de testosterona (Deposteron) ,  sob rigoroso controle ambulatorial.

DISCUSSÃO

A prevalência dos prolactinomas é estimada em 500 casos por milhão de habitantes1. Esses tumores afetam com maior frequência mulheres na terceira e quarta décadas de vida, e aos 50 anos, a proporção hipogonadismo, irregularidade menstrual ou amenorreia em mulheres, níveis baixos de testosterona sérica em homens e infertilidade e disfunção sexual em ambos os gêneros2. A hiperprolactinemia causa hipogonadismo hipogonadotrófico principalmente por inibir a secreção pulsátil do GnRH, além de inibir diretamente a esteroidogênese gonadal3.

O hipogonadismo hipogonadotrófico pode causar irregularidade menstrual e amenorreia em mulheres, disfunção sexual, infertilidade e perda de massa mineral óssea em ambos os gêneros. A galactorreia não é um sinal específico e pode estar presente em indivíduos normoprolactinêmicos3.

Diante de um paciente com hiperprolactinemia, após a exclusão de gravidez, amamentação, causas farmacológicas, hipotireoidismo primário, insuficiências renal e hepática, a realização de ressonância magnética (RM) da região selar está indicada. Na RM, pode-se identificar lesão menor que um centímetro, compatível com microprolactinoma, ou maior que um centímetro, compatível com macroprolactinoma. Prolactinomas gigantes são definidos quando o maior diâmetro ultrapassa 4 cm.

A RM é superior à tomografia na identificação dos microprolactinomas, enquanto nos macroprolactinomas pode-se visualizar com mais detalhes a invasividade tumoral. Quando houver compressão do quiasma óptico, a avaliação neuroftalmológica deve ser realizada4.

A cirurgia, geralmente por abordagem trans esfenoidal, é indicada para pacientes sem normalização dos níveis de PRL com altas doses de agonista dopaminérgico, macroprolactinomas com compressão quiasmática e deficiência visual sem melhora rápida com tratamento clínico; apoplexia sintomática4.

A reposição de testosterona para o tratamento do hipogonadismo tem por base na normalização dos níveis séricos de metabólitos sexuais, e controle dos sintomas associados à deficiência androgênica5. Conforme estudos recentes, a terapia de reposição de testosterona deve ser acompanhada por dosagem sérica de colesterol e seus componentes, já que a reposição está associada ao aumento dos níveis lipidêmicos, acarretando em aumento do risco de eventos cardiovasculares4,5, bem como da resistência insulínica5 (obesidade, aumento da circunferência abdominal e hipertensão arterial).  A TRH  deverá ser acompanhada por dosagem sérica de PSA,  hemograma e testosterona total, num período de 3 meses no primeiro ano de acompanhamento.

Em doentes com hiperprolactinemia, observa-se aumento dos níveis de LDL e triglicerídeos, com níveis de HDL diminuídos5,6. A prolactina está implicada na ativação do metabolismo dos lipídeos, gerando crescimento e maturação rápida dos adipócitos6.

REFERÊNCIAS

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