RESUMO:

A disfunção erétil (DE) e os sintomas do trato urinário inferior (LUTS) são responsáveis por impacto considerável na qualidade de vida dos pacientes. Nesses indivíduos, fatores de risco para doenças cardiovasculares como hipertensão arterial, tabagismo, diabetes, obesidade, dislipidemia e etilismo devem ser monitorados devido à possibilidade de problemas cardiovasculares futuros. O objetivo do trabalho foi investigar a incidência de fatores de risco para doenças cardiovasculares em pacientes com DE e/ou LUTS. Foram avaliados 56 pacientes portadores de DE e/ou LUTS, com idade entre 40 a 70 anos (58,21 ± 7,6), utilizando o Questionário Internacional de Sintomas Prostáticos (IPSS) e o Índice Internacional de Função Erétil (IIEF). Foi pesquisada, em cada paciente, a presença dos seguintes fatores de risco para doenças cardiovasculares: hipertensão arterial, tabagismo, diabetes, obesidade, dislipidemia, etilismo e sedentarismo. Do total de 56 indivíduos, 24 são portadores de disfunção erétil, 49 de LUTS e 22 de ambas afecções.

Os fatores de risco com a respectiva quantidade de pacientes foram: etilismo (n = 8), diabetes (9), obesidade (28), sedentarismo (22), tabagismo (11), dislipidêmicos (16) e hipertensos (18). Foi demonstrada a presença concomitante de tais fatores em pacientes com DE e/ou LUTS. Com base nesses resultados, pretende-se fornecer embasamento aos profissionais da saúde para que, ao lidarem com pacientes portadores de disfunção erétil e sintomas do trato urinário inferior, investiguem tais fatores de risco e iniciem tratamento precoce, promovendo melhor qualidade de vida, uma das mais complexas e almejadas metas terapêuticas.

INTRODUÇÃO:

O termo LUTS refere-se aos sintomas obstrutivos diretamente relacionados com a dificuldade miccional, podendo ser uma manifestação da hiperplasia benigna da próstata (HPB)1. Já a disfunção erétil consiste na incapacidade de se atingir e manter a ereção por tempo suficiente para o desenvolvimento de atividade sexual satisfatória2. LUTS e disfunção erétil são problemas comuns em homens de meia idade e idosos. Além disso, estudos epidemiológicos evidenciam que a gravidade do LUTS é um fator crucial no surgimento de disfunções sexuais3.

Doenças vasculares podem ser um dos fatores que afetam a gravidade do LUTS4. Homens com hipertensão arterial têm grau maior de LUTS do que homens não hipertensos5. Além disso, alguns distúrbios comuns de LUTS como freqüência miccional e noctúria são mais comuns em pacientes com pressão sangüínea elevada do que em normotensos6. Estudos recentes mostram ainda que homens com doenças cardíacas têm mais que o dobro de chance de desenvolverem LUTS do que homens saudáveis7. Inúmeras co-morbidades têm sido apontadas pela literatura atual como possíveis fatores de risco para o desenvolvimento de LUTS, como por exemplo o tabagismo, a obesidade, hipertensão arterial, diabetes mellitus e síndrome metabólica8,9.

Já a disfunção erétil possui incidência altamente associada à faixa etária, diabetes, uso de medicamentos, doenças coronarianas, obesidade e ao próprio LUTS. DE é basicamente uma doença vascular com processo patológico ao nível do endotélio, sendo que a alteração no fluxo sangüíneo para o pênis e a partir dele parece ser seu mecanismo mais comum10.

OBJETIVO:

O estudo tem por objetivo investigar a incidência de fatores de risco para doenças cardiovasculares em pacientes com disfunção erétil e LUTS.

CASUÍSTICA E MÉTODO:

A coleta de dados foi feita em 56 pacientes portadores de disfunção erétil e/ou LUTS atendidos no período de agosto/2008 a janeiro/2009 no Ambulatório de Urologia do Hospital de Base de São José do Rio Preto, com idade variando de 40 a 70 anos (58,21 ± 7,6)  com sintomas de LUTS e DE. Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP).

Para determinar a presença de disfunção erétil e LUTS nos pacientes avaliados, foram utilizados os seguintes instrumentos: Questionário Internacional de Sintomas Prostáticos (IPSS)11 e o Índice Internacional de Função Erétil (IIEF)12.

Foram investigados fatores de risco para doença cardiovascular como etilismo, diabetes, obesidade, sedentarismo, hipertensão, tabagismo e dislipidemia, que serão determinados individualmente em cada paciente.

A busca pelos fatores etilismo, tabagismo e sedentarismo foi feita por meio de questionamento direto ao paciente sobre seus hábitos de vida. A presença ou não de diabetes e dislipidemia foi determinada através de exames de sangue e de pesquisa no prontuário individual de cada paciente, através do número de registro do prontuário cada um. Obesidade foi determinada pela medida da cintura abdominal do paciente, enquanto que a hipertensão arterial foi verificada através da medida indireta da pressão arterial.

RESULTADOS:

No total foram estudados 56 pacientes usando-se questionários IPSS e IIEF. A faixa etária predominante foi de 51 a 60 anos, com 26 pacientes (46,4%), seguida de 21 pacientes na faixa de 61 a 70 anos (37,5%) e 9 pacientes com idade entre 41 e 50 anos (16,1%).

FIGURA 1

Figura 1. Distribuição percentual dos pacientes de acordo com a faixa etária.

Figura 1. Distribuição percentual dos pacientes de acordo com a faixa etária.

Observou-se, através do IIEF, que 29 (51,7%) pacientes possuíam algum grau de disfunção erétil (leve = 17 a 24 pontos; moderada = 10 a 16 pontos; grave = menos que 10 pontos), 11 (19,6%) afirmaram não ter atividade sexual e 16 (28,7%) não possuíam sintomas de disfunção erétil. Através do IPSS, verificou-se que 50 (89,2%) dos pacientes tinham LUTS, 29 (51,8%) tinham DE e 23 (41%) possuíam ambas as afecções.

FIGURA 2

Figura 2. Distribuição percentual dos pacientes conforme a incidência de LUTS e DE.

Figura 2. Distribuição percentual dos pacientes conforme a incidência de LUTS e DE.

 

Dentre os fatores de risco para doenças cardiovasculares, o mais freqüente foi a obesidade (50%, n = 28), seguida de sedentarismo (39,2%, n = 22), hipertensão (32,1%, n = 18), dislipidemia (28,5%, n = 16), tabagismo (19,6%, n = 11), diabetes (16%, n = 9) e etilismo (14,2%, n = 8).

FIGURA 3

Figura 3. Distribuição percentual dos pacientes de acordo com a incidência de fatores de risco para doenças cardiovasculares.

Figura 3. Distribuição percentual dos pacientes de acordo com a incidência de fatores de risco para doenças cardiovasculares.

DISCUSSÃO:

Os resultados indicam uma alta incidência de fatores de risco para doenças cardiovasculares em pacientes com disfunção erétil e/ou LUTS.

Essas taxas de incidência são comparáveis à de estudos prévios realizados no Brasil e em outros países do mundo, demonstrando a importância de se avaliar a presença dos fatores de risco para doenças cardiovasculares nos pacientes com DE e/ou LUTS13,14,23.

Atualmente, a obesidade é uma condição freqüente e a sua incidência encontra-se em progressão15,16, tendo alcançado proporções epidêmicas em muitos países. Além de ser fator de risco independente para doença coronariana17, parece ser um fator preditivo para DE17,18,19,20. Essa associação foi tida como secundária à presença de outros fatores de risco cardiovasculares, e não simplesmente à obesidade21, porém, estudos posteriores de análise multivariada demonstraram o efeito independente de predição de DE por parte da obesidade 20.

Guirao-Sanchez et al.22, em estudo com pacientes com fatores de risco para doenças cardíacas, mostrou elevada incidência de queixas de DE nesses pacientes (36%) e quanto maior o número de fatores de risco para doenças cardiovasculares, maior a incidência e a gravidade da DE.

A consistente associação entre hipertensão e sintomas prostáticos, bem como com a DE, mostrada neste estudo, condiz com resultados obtidos por Abdo et al.23 que verificaram que 55,7% dos pacientes com DE apresentavam hipertensão arterial.

Entre os 50 pacientes com LUTS, 46% apresentavam também DE, o que pode ser explicado pela piora que o LUTS causa na qualidade de vida dos pacientes, levando à impotência. Nesses casos, o tratamento de ambas torna-se necessário, uma vez que, geralmente, os pacientes chegam aos consultórios médicos apenas com a queixa de disfunção erétil, mas sem referir sintomas do trato urinário inferior.

CONCLUSÃO:

Notadamente, a disfunção erétil (DE) e os sintomas do trato urinário inferior (LUTS) são responsáveis por significativo impacto na qualidade de vida dos pacientes. Sabe-se também que fatores de risco para doença cardiovascular afetam pacientes de diversas formas. Assim, o estudo demonstra a presença concomitante de tais fatores em pacientes com DE e LUTS. Com isso, pretende-se fornecer embasamento aos profissionais da saúde para que, ao lidarem com pacientes portadores de disfunção erétil e sintomas do trato urinário inferior, fiquem atentos a fatores de risco como hipertensão, diabetes, dislipidemia, etilismo e tabagismo, visando não somente o tratamento dessas enfermidades urológicas, mas também a prevenção de doenças cardiovasculares.

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