INTRODUÇÃO

O termo cirurgia provém do latim chirurgia, que o tomou do grego kheirourgia, de kheír, mão eérgon, trabalho. Portanto, etimologicamente, cirurgia significa trabalho manual (1). De acordo com a linguagem tradicional, cirurgia é definida como o ramo da medicina que se dedica ao tratamento de enfermos por meio de operações (2).

Segundo Aristóteles, devemos tomar conhecimento dos primórdios quando quisermos dizer que entendemos de algo (3). Nesse contexto, podemos citar alguns marcos na história, que revolucionaram a intervenção cirúrgica, como o conhecimento anatômico, a descoberta da anestesia, a atuação dosmicro-organismos na infecção e o avanço tecnológico que permitiu a cirurgia minimamente invasiva.

Objetivou-se com essetrabalho apresentar uma breve história da cirurgia, destacando-se alguns desses importantes marcos. Para isso, realizou-se uma revisão narrativa de literatura e estruturou-se a pesquisa em três momentos: era pré-anestésica, era pós-anestésica e era robótica.

ERA PRÉ-ANESTÉSICA

Ao longo da história, o homem lançou mão de várias estratégias para preservar a vida e tratar doenças. Na idade da pedra, curandeiros perfuravam os crânios de pacientes com quadros prováveis de enxaqueca e epilepsia, utilizando instrumentos rudimentares. A trepanação tinha o objetivo de expulsar os maus espíritos causadores dos problemas.Centenas de fósseis cranianos trepanados do período mesolítico (10000 a 5000 a.C.) foram encontrados em sítios arqueológicos ao redor do mundo (4). A cicatrização ao redor das bordas desses orifícios evidenciava que muitos desses pacientes, inacreditavelmente, sobreviviam após a trepanação.

Na idade média, principalmente entre os séculos X e XV, os cirurgiões eram mais comerciantes do que médicos e eram conhecidos como barbeiros (5). As operações eram verdadeiros espetáculos teatrais e o barbeiro deveria ser um ator talentoso. Os mais hábeis eram àqueles que conseguiam operar com mais rapidez, o que diminuía a agonia dos pacientes causada pela dor.

Em 16 de outubro de 1846, William T.G. Morton, um dentista de Boston, utilizou um inalador de éter em um paciente cirúrgico (6). A rapidez do procedimento não era mais a principal preocupação. A anestesia por inalação deu aos cirurgiões a liberdade para experimentar e começar a realizar operações mais longas e complexas, nunca antes imaginadas pelos barbeiros. Entretanto, apesar do alívio da dor, as taxas de mortalidade pós-operatórias continuavam altas devido às infecções.

ERA PÓS-ANESTÉSICA

Na idade moderna, em meados do século XIX, o médico húngaro IgnazSemmelweis descobriu um método eficaz de prevenção dafebre puerperal. Médicos e estudantes deveriam lavar as mãos com uma solução de hipoclorito de cálcio antes de examinar as mulheres grávidas (7). Então, a solução para a queda da mortalidade pós-operatória era bem simples: os cirurgiões deveriam lavar as mãos antes das operações como eles as lavavam depois.

O conhecimento de que a febre puerperal é causada por bactérias só ocorreu anos depois da descoberta de Semmelweis, com a “Teoria dos Germes” de Pasteur (8,9). Em 1865, Joseph Lister, um cirurgião e pesquisador inglês, aplicou os conhecimentos de Pasteur para eliminar os micro-organismos vivos de feridas, utilizando ácido carbólico e esterilizando por calor os instrumentos operatórios (10). Dessa forma, é considerado o pioneiro das técnicas assépticas cirúrgicas modernas (11).

Com os pacientes insensíveis à dor e com a técnica asséptica, as cirurgias estavam realmente curando enfermidades em qualquer parte do corpo. Iniciava-se uma nova era, a era dos grandes cirurgiões, grandes incisões. Os cirurgiões estavam salvando vidas, mas não necessariamente proporcionando qualidade de vida.

Desde o início do século XX, a videolaparoscopia é considerada uma alternativa minimamente invasiva à cirurgia aberta. Devido às menores incisões na pele e no músculo, com consequente diminuição da dor no pós-operatório, menor risco de sangramento, melhores resultados estéticos, além de uma recuperação mais rápida do paciente, a laparoscopia tornou-se uma opção emergente a partir da década de 80, mudando radicalmente os paradigmas da cirurgia tradicional. Toda nova tecnologia visa a melhora da qualidade de atendimento aos pacientes, mas demanda da classe médica um treinamento especializado e requer uma curva de aprendizado (12). Na videolaparoscopia, essa curva é muito íngreme, principalmente devido a visão bidimensional e a rigidez na manipulação dos instrumentos laparoscópicos, com movimentos pouco intuitivos (13).

ERA ROBÓTICA

O avanço de tecnologias cada vez mais sofisticadas, desencadeado pelo aumento dos investimentos e custos econômicos na área da saúde, além da busca constante pelos benefícios da cirurgia minimamente invasiva, permitiu o desenvolvimento de sistemas robóticos que ajudavam o trabalho dos cirurgiões. Na década de 80, algumas plataformas foram utilizadas, como PUMA 560, PROBOT e ROBODOC (14).

Em 1993, a empresa americana Computer Motion Inc desenvolveuo AESOP, primeiro sistema robótico aprovado para cirurgia abdominal pela FDA que é a agência reguladora de saúde do Estados Unidos. O AESOP permitia aos cirurgiões um controle por voz do posicionamento da câmera laparoscópica. Posteriormente, a mesma empresa desenvolveu a plataforma ZEUS que possuía três braços robóticos ancorados ao lado do paciente: dois braços operacionais que forneciam quatro graus de liberdade e eram controlados pelo cirurgião em um console, além de um braço que segurava a câmera e era controlado por voz como o AESOP (15).

Em 1995, Frederick Moll fundou a empresa Intuitive Surgical com o objetivo de desenvolver um sistema robótico, originalmente projetado pelo exército americano, que permitia cirurgia à distância. Foi então criada a plataformadaVinci® que proporcionou ao cirurgião uma visão tridimensional, menor curva de aprendizado, melhor ergonomia e melhor manipulação de instrumentos em procedimentos laparoscópicos assistidos pelo robô (16).

Em 2003, Computer Motion Incfundiu-se com aIntuitiveSurgical, combinando os esforços na produção de uma tecnologia mais eficaz. A plataforma ZEUS foi eliminada e o robô daVinci® transformou-se no único sistema de cirurgiarobótica disponível para comercialização, elevando consideravelmente o seu custo. Desde então, o seu uso em diversas especialidades cirúrgicas vem aumentando progressivamenteem todo mundo, inclusive no Brasil.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em breve, verificar-se-á a introdução de novas plataformas robóticas no mercado. Assim como acontece com outros produtos tecnológicos, o término do monopólio da empresa IntuitiveSurgicalfavorecerá a diminuição dos custos e a popularização das cirurgias robóticas.

Espera-se, inclusive, uma nova revoluçãocirúrgica com o uso de nanotecnologia e inteligência artificial. Questiona-se também se a biologia molecular substituirá algumas intervenções operatórias.

Ao longo das eras, acirurgiasofreu influência da evolução de instrumentos e das tecnologias, porém o primordial sempre foi a habilidade manual do cirurgião. Apesar de um futuro incerto e sem previsões garantidas, seguramente a cirurgia repousa em um passado grandioso e provavelmente seu significado etimológico será preservado.

REFERÊNCIAS
1. Rezende JM. Cirurgia e Patologia. Acta Cir. Bras. 2005; 20(5): 346.
2. Becker I. Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil. São Paulo: Livraria Nobel; 1968.
3. Amato ACM. Breve História da Cirurgia. In: Moraes, IN. Tratado de Clínica Cirúrgica. São Paulo: Roca; 2005. p.3-17.
4. Castro FS, Landeira-Fernandez J. Alma, Mente e Cérebro na Pré-história e nas Primeiras Civilizações Humanas. PsicolReflexCrit. 2010; 23(1): 37-48.
5. Himmelmann L. Frombarbertosurgeon – theprocessofprofessionalization. SvenMedTidskr. 2007; 11(1): 69-87.
6. Rutkow IM. História da Cirurgia. In: Townsend Jr CM, Beauchamp RD, Evers BM, Mattox KL. Sabiston Textbook of Surgery: the biological basis of modern surgical pratice. 17th ed. Philadelphia: Saunders: Elsevier; 2004. p. 3-19.
7. Oliveira M, FernandezB. Hempel, Semmelweis e a verdadeira tragédia da febre puerperal. SciStud. 2007;5(1): 49-79.
8. Karamanou M, Panayiotakopoulos G, Tsoucalas G, Kousoulis AA, Androutsos G. From miasmas togerms: a historical approach totheoriesofinfectiousdiseasetransmission. Infez Med. 2012; 20(1): 58-62.
9. Pereyra-Toledo LH. Louis Pasteur SurgicalRevolution. J InvestSurg. 2009; 22(2): 82-87.
10. Cavaillon JM, Chrétien F. From septicemia tosepsis 3.0 – fromIgnazSemmelweisto Louis Pasteur. Genes Immun. 2019; 20(5): 371-382.
11. Pereyra-Toledo LH. Joseph Lister’ssurgicalrevolution. J InvestSurg. 2010; 23(5): 241-243.
12. Torkington J, et al. The role of simulation in surgical training. Ann R CollSurg Engl. 2000; 82(2): 88-94.
13. Arezzo A. The past, the presente, andthe future ofminimallyinvasivetherapy in laparoscopicsurgery: A reviewandspeculativeoutlook.
14. Minim Invasive TherAlliedTechnol. 2014; 23(5): 253-260.
15. Lane T. A short historyofroboticsurgery. Ann R Coll SurgEngl. 2018; 100(6sup): 5-7.
16. Marino MV, Shabat G, Gulotta G, Komorowski AL.FromIllusionto Reality: A Brief History of RoboticSurgery. SurgInnov. 2018; 25(3): 291-296.
17. Fisher RA, et al. An over-view of robot assisted surgery curricula and the status of their validation. Int J Surg. 2015; 13: 115-23.